ANTIGO TESTAMENTOJó 71“Não é verdade que a vida do ser humano é como uma sentença de trabalho forçado? Não são seus dias como os de um trabalhador assalariado?2Como um escravo que suspira por um pouco de sombra, como um diarista que espera ansioso pelo pagamento ao final do dia,3assim me foram dados meses de um vazio interior, e noites de aflições.4Quando me deito, penso: ‘Quando virá o amanhecer?’ Mas a noite se arrasta, e eu me reviro até o romper do dia.5Meu corpo está coberto de vermes e cascas de feridas; minha pele está rachada e escorre pus.6Meus dias passam mais rápido que a lançadeira do tecelão e terminam sem esperança.7Lembra-te de que minha vida é apenas um sopro; meus olhos jamais voltarão a ver a felicidade.8Os olhos que me veem agora não me verão mais; tu me procurarás, mas já terei partido.9Assim como uma nuvem se dissipa e desaparece, aquele que desce à sepultura não volta mais.10Nunca mais retornará para casa, e quem o conhecia logo o esquecerá.11Por isso, não me calarei — falarei na angústia do meu espírito, me queixarei na amargura da minha alma.12Sou por acaso o mar, ou um monstro marinho, para que me ponhas sob guarda?13Se eu digo a mim mesmo: ‘Vou me sentir melhor se me deitar na cama’,14então tu me assustas com sonhos e me aterrorizas com visões,15a ponto de preferir ser estrangulado — melhor morrer do que se tornar apenas um saco de ossos.16Detesto a minha vida! Sei que não viverei por muito tempo. Deixa-me em paz, pois minha vida é apenas um sopro.17Por que te importas tanto com o ser humano? Por que te preocupas tanto com ele18examinando-o todas as manhãs e provando-o a cada instante?19Por que não desvias os olhos de mim? Por que não me deixas em paz nem por um instante? Mal consigo respirar.20O que fiz de errado? O que fiz contra ti, ó Vigia da humanidade? Por que me transformaste em alvo, a ponto de me tornar um fardo para mim mesmo?21Se pequei, por que não perdoas meu pecado e tiras de mim a minha culpa? Pois logo me deitarei no pó, e, mesmo que me procures, já terei desaparecido.”