ANTIGO TESTAMENTOJó 101Detesto a minha vida! Quero falar abertamente da minha aflição — não posso sufocar a amargura da minha alma.2Direi a Deus: “Não apenas me condenes — deixa-me saber quais acusações tens contra mim.3Tens prazer em me acusar? Por que rejeitas a mim, a quem formaste com tuas próprias mãos, enquanto sorris para os planos dos perversos?4Acaso teus olhos são como os nossos? Será que vês como nós vemos?5São os teus dias tão breves quanto os nossos? E os anos da tua vida tão curtos quanto os de um ser humano qualquer,6que precisas, sem demora, investigar minhas faltas e vasculhar meus pecados?7Mesmo sabendo que não sou culpado, não há quem possa livrar-me de tuas mãos.8Tu me criaste e me formaste com tuas próprias mãos — e agora queres me destruir?9Lembra-te que do barro me moldaste — e agora me farás voltar ao pó?10Por acaso, não me derramaste como leite e me coalhaste como queijo?11De pele e carne me vestiste, e teceste o meu corpo com ossos e músculos.12Vida me deste, e me envolveste com tua bondade; cuidaste de mim com toda ternura.13Mas escondeste tuas reais intenções no coração, pois o teu propósito14era me vigiar e, se eu pecasse, não perdoarias minhas ofensas.15Se eu fosse culpado, ai de mim. Mas, mesmo sendo inocente, não posso levantar a cabeça, pois me encho de vergonha ao olhar para meus sofrimentos.16Se ouso erguer a cabeça, tu me caças como um leão e de novo mostras tua força para me ferir.17Renovas tuas acusações contra mim, derramas tua ira sem cessar e me atacas com um exército após o outro.18Então por que me deixaste nascer? Quem me dera ter morrido sem jamais ser visto por alguém!19Teria sido melhor se eu nunca tivesse existido, levado direto do ventre ao túmulo.20Restam-me apenas alguns dias — por que, então, não me deixas em paz, para que eu tenha um instante de alívio,21antes de partir para o lugar de onde não se volta mais, para a terra das trevas e da sombra da morte —22terra de profunda escuridão, onde reinam a morte e o caos, e onde até a própria luz é como escuridão?”